Arquidiocese de Manaus - Área Missionária João Paulo II

O apostolado de São Paulo em Corinto


Corinto era então uma das cidades mais importantes do Império Romano, situada no istmo que une a Grécia ao Peloponeso. Calcula-se que o número de seus habitantes ultrapassasse meio milhão, com predominância dos de origem latina, mas também com gregos e asiáticos, e não poucos judeus. Seus portos, abertos para o mar Egeu e para o mar Jônico, tinham um extraordinário movimento comercial. Sua corrupção, entretanto, se havia tornado proverbial no mundo antigo.
São Paulo fundou essa cristandade em sua segunda viagem apostólica (anos 50-53), ali permanecendo até fins do ano 52. Das vicissitudes dessa fundação fala São Lucas nos Atos dos Apóstolos (cfr. 18, 1-18). São Paulo sofreu ali muitos dissabores e perseguições, ao ponto de o mesmo Jesus, aparecendo-lhe numa visão, ter de animá-lo, dizendo: “Não temas, mas fala e não te cales; eu estou contigo e ninguém se atreverá a fazer-te mal, porque tenho nesta cidade um povo numeroso” (Act. 18, 9-10).
De fato, a comunidade cristã de Corinto, com grupos fora da capital, deve ter sido uma das mais numerosas entre as fundadas pelo Apóstolo, a julgar pelos dados que ele mesmo dá em suas epístolas. Parece que predominava o elemento gentio sobre o judeu. Não faltavam convertidos de boa posição social (cfr. I Cor. 1, 16; 11, 17-34), embora, em sua imensa maioria, os convertidos fossem de condição humilde (cfr. I Cor 1, 26-29). O elemento feminino também era importante (cfr. I Cor 11, 1-16; 14, 34-36).
Mais ou menos um ano depois de São Paulo ter deixado Corinto, ali chegou Apolo, judeu alexandrino muito versado na Sagrada Escritura, o qual continuou a evangelização iniciada por São Paulo (cfr. Act. 18, 27-28; I Cor. 3, 4-6). Algum tempo depois, Apolo regressou a Éfeso e se reuniu a São Paulo (cfr. I Cor. 16, 12).
É provável que, não muito depois de Apolo, chegassem a Corinto outros evangelizadores, judeus palestinenses aparentemente convertidos ao cristianismo, mas cuja ortodoxia doutrinal deixava muito a desejar. São Paulo os denuncia nos quatro últimos capítulos da segunda Epístola aos Coríntios, chamando-os de “falsos apóstolos, operários fingidos, que se transfiguram em apóstolos de Cristo” (II Cor. 11, 13 — ver acima). Esses “falsos apóstolos” atacavam descaradamente a pessoa de São Paulo e seu título de Apóstolo (cfr. II Cor. 10, 9-10; 11, 5-7; 12, 11-13). É muito provável que a eles deva atribuir-se grande parte dos abusos e problemas na comunidade cristã, que produziram séria inquietação em São Paulo, e que ele trata de corrigir (cfr. I Cor. 1, 10-12; 4, 18-19; 9, 1-3): existência de facções ou partidos entre os fiéis (1, 11); lassidão em matéria de impureza (5, 2); pleitos ante tribunais pagãos (6, 1); demasiada liberdade das mulheres nas assembléias litúrgicas (11, 16; 14, 36); conduta pouco caridosa de alguns na celebração da “ceia do Senhor” (11, 20). As notícias vindas de Corinto informavam São Paulo também de dúvidas e disputas referentes a pontos doutrinais, tais como matrimônio e virgindade (7, 1); carnes imoladas aos ídolos (8, 1); uso dos carismas (12, 1); a ressurreição dos mortos (15, 12).
Alguns autores relacionam esses “falsos apóstolos” com os agitadores judaizantes que, por essa mesma época, perturbavam as comunidades cristãs da Galácia (cfr. Gal. 1, 7; 3, 1; 4, 17; 5, 12 — sobre a questão dos judaizantes, já escrevemos nesta seção na edição de julho/2006).
O certo é que esses “falsos apóstolos” tratavam de desacreditar São Paulo, semeando a desconfiança em torno dele, diminuindo-lhe os dotes humanos, imputando-lhe comportamentos pouco limpos, e sobretudo acusando-o de ser um intruso no apostolado (ele não era do número dos Doze, mas fora escolhido diretamente por Jesus Cristo, conforme a célebre cena da estrada de Damasco). Contra tudo isso São Paulo se defende com vigor e altaneria, alertando os fiéis e denunciando os “falsos apóstolos, operários fingidos, que se transfiguram em apóstolos de Cristo”,como consta no trecho acima selecionado.